PROTEÇÃO DA QUALIDADE DA
ÁGUA SUBTERRÂNEA ATRAVÉS
DE UMA IRRIGAÇÃO EFICIENTE

B. P. Warkentin

Universidade Estadual de Oregón
Corvallis, Oregon, Estados Unidos


RESUMO

Várias áreas no Oregon, EUA, são suscetíveis de contaminação por fontes que provêem dos cultivos sob irrigação. O uso eficiente e a reutilização da água de irrigação é a chave para proteger a qualidade e a quantidade das águas subterrâneas superficiais. A salinidade do solo não é um grande problema nestas regiões

A agricultura se preocupa quase exclusivamente com o uso eficiente das entradas de energia para obter produções máximas. Agora este enfoque mudou em relação à gestão dos recursos para a preservação da qualidade da água e da terra. Vários incentivos e normatividades estão reforçando esta mudança em Oregon. A gestão das estratégias para a proteção da qualidade da água através da irrigação eficiente inclui o tempo e a proporção da aplicação de produtos químicos, métodos e técnicas de irrigação mais eficientes e a reutilização da água para irrigação. A água subterrânea com conteúdo de nitrato está sendo usada para irrigação já que possui valor de fertilizante e de água.

A conservação da água é considerada como a chave para o uso eficiente. A conservação faz com que a água esteja disponível para outros usos benéficos. Enquanto que o conceito é simples, a aplicação de medidas de conservação tem um impacto na economia, nos padrões sociais e nos ajustes institucionais para a utilização da água e na natureza da nossa necessidade dela. Já que a água é necessária para a vida, as expectativas para sua substituição, que é um recurso escasso, são limitadas: seu custo não pode ser utilizado com o objetivo de racioná-la e uma política nacional poderia requerer que fosse utilizada para valores baixos, tais como a agricultura.


INTRODUÇÃO

A irrigação é usada para ajudar no crescimento dos cultivos em áreas onde a precipitação natural poderia ser insuficiente para cobrir as necessidades do cultivo; utiliza-se também para causar a diminuição da variabilidade no crescimento da colheita e da criação de gado por ano. Os sistemas de irrigação podem ser muito caros, com custos anuais que variam de dezenas até várias centenas de dólares americanos por hectare. Portanto, é preciso maximizar outros aspectos para melhorar as colheitas, tais como o uso de fertilizantes e pesticidas. Estes insumos externos trouxeram junto com eles grandes incrementos na produção agrícola durante os últimos 50 anos, mas os insumos eram caros. A água por si própria pode ser relativamente barata, e, conseqüentemente, o incentivo econômico para seu uso eficiente é baixo. Entretanto, onde o custo da água é uma proporção significativa dos custos totais de produção, a eficiência no seu uso se torna um fator importante para a gestão de cultivos. A irrigação é freqüentemente praticada em solos de grão médio e grosso, areias e areias limosas, que geralmente possuem uma grande permeabilidade. A camada superior do solo normalmente se mantém úmida sob a irrigação para uma colheita máxima e, devido a esse fator, os cultivos desenvolvem profundidades radiculares superficiais de 30 a 60 centímetros. A permeabilidade alta y a baixa profundidade radicular fazem da infiltração na área radicular um fenômeno comum.

Nas áreas de Oregon onde ocorre a irrigação, a precipitação anual é de 25 centímetros. Quase toda ela ocorre durante o inverno. Conforme ocorre em outras regiões com baixa precipitação, a variabilidade por ano é alta: de 15 a 45 centímetros.

A conexão entre a irrigação e a qualidade da água subterrânea é quase direta através do processo de infiltração de produtos químicos solúveis sob a área radicular. Nitratos acarretados sob a área radicular se tornam mais profundos em pulsos durante os anos de grandes precipitações ou quando existe água armazenada em excesso debaixo da área radicular. Os pesticidas solúveis também podem se infiltrar. Esses pulsos podem mover a matéria solúvel a uma velocidade média de 10 a 100 centímetros por ano.

A irrigação em excesso em áreas áridas é usada para infiltrar o sal da área radicular. Esta porcentagem de infiltração e qualquer acréscimo de água não planejada como resultado do excesso de irrigação ou da alta precipitação alimenta a água subterrânea superficial. A elevação das lâminas de irrigação gera um problema sério na agricultura de irrigação nas áreas áridas. A salinização gradual é frequentemente o resultado do incremento nas lâminas de irrigação nas áreas onde não existe uma drenagem apropriada.

De forma ideal, a quantidade de água usada na irrigação deveria ser exatamente igual à quantidade de água evaporada e à transpiração do cultivo. Vários aspectos prácticos da irrigação de cultivos fazem disso uma meta difícil de alcançar. Essa irrigação ideal quase chega à perfeição através de gotejamento, mas não por aspersão e por sulcos e muito menos na irrigação por inundação. O uso eficiente da água pode ser obtido mediante irrigação por aspersão ou por gotejamento, mas os custos de energia dessas opções também aumentam. Grandes melhorias na eficiência estão sendo conquistadas em sistemas de irrigação por meio de sulcos.

Realizaram-se grandes colheitas nos últimos 50 anos através do uso de insumos energéticos na agricultura. O interesse atual se enfoca no incremento na eficiência. Por motivos econômicos e de qualidade do ambiente, existe hoje uma necessidade de conquistar maiores eficiências nas colheitas com menores insumos. A chave para um custo econômico e ambiental menor seria a conservação.

 

 

EFICIÊNCIA NA IRRIGAÇÃO

As quantidades de água que são utilizadas para a irrigação são grandes comparadas com as utilizadas para usos domésticos. Pequenos incrementos na eficiência da irrigação produziriam incrementos significativos na água disponível para outros usos. A eficiência é importante onde a competência pela água a faz desejável para incrementar os abastecimentos. A eficiência também faz baixar os custos de energia de bombeamento e da extração de água para a irrigação. A competência entre a irrigação e o uso doméstico é decidida geralmente a favor do uso doméstico, já que a boa vontade para pagar é maior nos usos domésticos. A atribuição da água no sul da Califórnia, EUA, em anos recentes é um exemplo. Entretanto, a utilização da água para a irrigação, recreação, centros de piscicultura e estáticos (por exemplo: rios com atrativos naturais) estão mais equilibrados, especialmente durante estes últimos anos já que o uso público da água foi defendido com maior vigor. A eficiência na utilização (conservação) começa a ser considerada como uma fonte extra de água para essas utilizações públicas desejáveis.

A eficiência na irrigação possui diferentes componentes (Tabela 1). As perdas nos sistemas de distribuição ocorrem devido às filtrações e evaporações; as perdas na aplicação da irrigação ocorrem devido aos lotes, ao vento, a evaporação e a drenagem; as perdas do solo ocorrem devido à água em excesso que o cultivo não consegue aproveitar.

Tabela 1
Fatores da eficiência na irrigação

1.   Eficiência da condução        Relação da água sustentada com a
                                   água separada da fonte             
 
2.   Eficiência da aplicação        Relação da água sustentada com a
                                    água que chega do solo               
 
3.   Eficiência no uso da água     Relação da água disponível para o
                                   cultivo com a água aplicada no solo   
                                      
 

A eficiência pode aumentar de diferentes maneiras. As perdas nos sistemas de distribuição podem ser evitadas mediante a utilização de tubulação ou de revestimento de canais. A eficiência na aplicação da irrigação varia com o sistema de irrigação e pode ser incrementada, por exemplo, trocando a irrigação de sulcos pela de aspersão ou pelo de gotejamento. Pode-se determinar de maneira exata as quantidades de água que o cultivo precisa.

Um fator menos óbvio na eficiência da irrigação é o efeito da variação do solo (English, et. al., 1986). Na Tabela 2 podemos ver um exemplo hipotético onde diferentes partes do solo retêm diferentes quantidades de água na área radicular. Podem ser usadas diferentes estratégias de gestão para determinar as quantidades adicionais de água que resultam de diferentes eficiências. A média da capacidade da área radicular é de 11 centímetros de água. Caso essa quantidade for proporcionada, ocorrerá lixiviação na metade do solo e a outra metade não atingirá a sua capacidade. O uso eficiente nominal é de 100%, e a eficiência real de 91%. Define-se a eficiência conforme a proporção da água aplicada que é armazenada na área radicular. Caso sejam aplicados 14 centímetros de água, que é a quantidade necessária para encher completamente a capacidade da área radicular, ocorre a lixiviação em três quartos do solo.

Uma variação adicional da irrigação mediante sulcos é a diferença que existe entre a água próxima a parte superior do sulco que se encontra úmida por um período mais longo e a que se aplica próximo ao fundo do sulco. Isso é certo inclusive para os solos uniformes e aumenta conforme o crescimento da longitude do sulco. A irrigação por “pulsações ou ondas” com um gasto maior que o necessário pode incrementar a eficiência.

O custo da água possui em prática a influência na eficiência da irrigação. Na Tabela 3 podemos ver uma comparação de duas áreas em Oregon com diferentes custos de água (Miglioretto y Warkentin, 1990). A área com um custo alto usa somente a água necessária para o uso calculado e a área com água barata utiliza 50% a mais.

Tabela 2
Efeitos de variabilidade de profundidade radicular na irrigação

Proporção da área

Capacidade da área radicular (cm)

Excesso de água ou déficit da irrigação

11 cm a mais

14 cm a mais

25

8

3 cm (excesso)

6 cm (excesso)

25

10

1 cm (excesso)

4 cm (excesso)

25

12

1 cm (déficit)

2 cm (excesso)

25

14

3 cm (déficit)

0

Média

11

 

 

Média de lixiviação

 

1 cm

3 cm

Eficiência nominal

 

100%

78%

Eficiência real

 

91%

78%

Tabela 3
Efeito do custo da água na quantidade que se usa na irrigação

Localização

Sistema de irrigação

Custo da água USD/M

Média de água aplicada (cm) *

Uso do cultivo (cm)*

48.7° N,177°

Aspersão

50

90

60

50.8°N,119°

Pivô central ou aspersão

300

80

80

* Para feijão baio

EFICIÊNCIA E QUALIDADE
DA ÃGUA SUBTERRÃNEA

Os modelos simples indicam que as substâncias químicas solúveis, tais como os nitratos, irão se filtrar por debaixo da área radicular na mesma proporção em que a água drenada será filtrada pelo solo (Jury y Nielson, 1989). Caso haja nitrogênio disponível para um crescimento ótimo do cultivo, a perda de nitratos será uma função linear do volume da água infiltrada. Esses modelos simples se baseiam no pressuposto de que a solubilidade não é um fator limitante e não se encontra em equilíbrio. Essas últimas são desviadas com a finalidade de oferecer aproximações úteis para a maioria dos solos. Essa relação linear se mantém apesar da variabilidade do solo e da uniformidade na irrigação. Enquanto existir nitrogênio disponível, qualquer excesso de água irá deslocar nitratos.

O tempo nas aplicações de nitrogênio afeta a perda por lixiviação porque esse, por sua vez, afeta, em qualquer instante, a concentração de nitratos no solo. A maior perda irá ocorrer quando todo o nitrogênio será aplicado no momento da semeadura. A qualidade da água pode ser protegida com um sistema de gestão que limita, em qualquer momento, os nitratos no solo a quantidade que o cultivo precisa.

A perda de um centímetro de água por debaixo da área radicular mediante lixiviação poderia resultar em uma perda de 5 kg de nitrogênio por hectare, caso a concentração da solução do solo seja de 50 mg por litro. Depois de várias irrigações e com vários centímetros de lixiviação, a perda de nitrogênio pode aproximar-se a 100 kg por hectare. O custo do nitrogênio perdido pode ser de 45 dólares americanos; o custo da água perdida pode ser de 10 a 50 dólares.

Podem-se obter ganhos na qualidade da água subterrânea e na eficiência da irrigação caso os terrenos forem usados de forma diferente, dependendo da variação do solo. Se a variação ocorrer em uma distância de aproximadamente 50 metros, diferentes quantidades de águas podem ser aplicadas em diferentes partes do terreno. Caso essa variação ocorrer em 5 metros, não seria prático tratá-los com esse critério. Consequentemente, a natureza da variabilidade do solo vem a ser um fator importante na gestão da eficiência e na qualidade da água subterrânea. Tais sistemas exigem um melhor conhecimento, especialmente sobre tecnologia mais avançada.

REUTILIZAÇÃO DA ÃGUA

Alguma coisa da água de irrigação que se perde durante sua transferência e aplicação pode ser utilizada novamente. A reutilização é muito comum. A natureza e a quantidade da reutilização dependem das quantidades locais. A água drenada do final dos sulcos pode ser coletada e usada como fonte de irrigação para terrenos com elevações mais baixas. Os sistemas de bombeamento que coletam a água em excesso no final do terreno também são comuns. Sob determinadas condições, a água em excesso pode voltar através do fluxo natural e ser reutilizada. Cada um desses casos, a eficiência real do uso poderia ser incrementada. Entretanto, a qualidade da água diminui com freqüência, podendo limitar a sua reutilização.

Os sedimentos y os produtos químicos solúveis na água podem torná-la inapta e a interação entre a eficiência e a qualidade da água é complexa.

Um caso particular da reutilização é o uso da água subterrânea com concentrações altas de nitratos na irrigação. Neste caso, os nitratos na faixa de 10 a 50 miligramas por litro são bombeados desde profundidades de 10 a 30 metros e são usados como água para irrigação em Oregon. Com concentrações de nitratos por menos de 25 mg/l, é preciso acrescentar nitrogênio para alcançar os requerimentos dos cultivos. Uma concentração maior, e caso a irrigação se baseie nos requerimentos da água de cultivo, precisará abastecer uma quantidade excessiva de nitrogênio. Portanto, a água com um alto conteúdo de nitratos se mistura com a água que possui essa substância em baixa quantidade e obtem-se a quantidade correta de nitrogênio. O valor do nitrogênio contrabalanceia parte dos custos de bombeamento (Tabela 4).

Tabela 4
Utilização da água subterrânea com conteúdo de nitratos para irrigação

Conteúdo de nitratos (mg/l,NO3-N)

Nitrogênio * aplicado

Porcentagem de nitrogênio requerido pelo cultivo

Valor do nitrogênio (dólares americanos por Ha)

5

35

18

8

10

70

35

15

20

140

70

30

30

210

105

45

50

350

175

45

* Calculado para milho com um requerimento de 200 kg/Ha de fertilizante de nitrogênio e uma lâmina de 70 cm

ESTRATÉGIAS PARA A PROTEÇÃO
DA ÁGUA SUBTERRÃNEA

Em Oregon, a Ata para a Proteção da Qualidade da Água Subterrânea está destinada a proteger, conservar e restaurar os recursos da água subterrânea. Os estudos da qualidade desse tipo de água transferem informações para uma base de dados que identificam as áreas onde a sua qualidade corre perigo. Se a água subterrânea apresentar concentrações de nitratos acima de 70% ou concentrações de outros produtos químicos acima de 50% dos níveis permitidos, a área é considerada “Área de Gestão de Água Subterrânea”. Atualmente, existem duas áreas em Oregon com fontes de contaminação. Um comitê de gestão de água subterrânea local é formado por cidadãos e usuários de água interessados na área. Eles preparam um plano de ação que mostra com detalhes a implementação voluntária de “práticas de melhor gestão” e o uso de planos de gestão das granjas individuais. O plano se baseia nas informações disponíveis de estudos de investigação, inclui monitoramento da efetividade e mostra com detalhes a investigação, a transferência das informações, a educação e projetos de demonstração necessários para concluir o plano.

Essas “práticas de melhor gestão” incluem estratégia para a eficiência na irrigação. Já que qualquer excesso de água acarretará produtos químicos solúveis por debaixo da área radicular, a eficiência na sua utilização é a chave para manter e melhorar a qualidade da água subterrânea. Essas estratégias chegam a ser os componentes dos planos de granjas individuais que detalham: os calendários para as irrigações, a nivelação dos terrenos, os sistemas de aplicação da irrigação, etc., que deverão ser efetuados para incrementar a eficiência na irrigação.

USOS BENÉFICOS

O propósito da gestão da água é de fornecê-la para usos benéficos. A quantidade necessária para conseguir isso varia de acordo com a região. Portanto, é difícil usar uma definição uniforme para áreas grandes. Entretanto, uma regulamentação geral que define o desperdício da água poderia ser complicada. Isso resulta em um desacordo sobre quanta água se desperdiça e em que quantidade; mas o abastecimento seria incrementado através da conservação.

Em Oregon, a competência pela água levou a um crescente interesse na sua conservação. A água conservada poderia ser usada em outras utilizações benéficas. Em lugares cuja precipitação não tem uma distribuição uniforme, com chuvas no inverno e períodos secos no verão, o armazenamento de água é uma necessidade. O uso da água é regulado através de uma doutrina de apropriação que permite o desvio da água em quantidades suficientes para usos benéficos. A prioridade para seu uso se baseia nos direitos da água a partir da data do enchimento. Durante o período da estiagem, os proprietários que possuem as datas mais recentes são os primeiros a sofrer a restrição usando a quantidade de água. Anteriormente, a qualidade da água não era fator preocupante para a doutrina da apropriação. A incógnita que se apresenta é se uma utilização benéfica pode permitir uma diminuição na qualidade da água.

REFERÊNCIAS

ENGLISH, M.; TAYLOR, A. e JOHN, P. (1986), Evaluating Sprinkler System Performance. New Zealand Agricultural Science 20:1.

JURY, W. A. e NIELSON, D. R. (1989), Nitrate Transport and Leaching Mechanisms. Chap 5 in Follet, R. F. (editor) Nitrogen Management and Ground Water Protection. Elsevier, Amsterdam.

MIGLIORETTO, T. e WARKENTIN, B. P. (1990). Northern Malheur County Water Management Area. Unpublished report, Department of Soil Science, Oregon State University, pp 106.